sábado, 2 de junho de 2007

Clichês

Violência de fora pra dentro
O dia-a-dia em conflito com a individualidade

Algumas cenas da realidade do Brasil viraram clichê. É até clichê dizer que isso é clichê. Ostentar jóias ou objetos visíveis aos outros, por exemplo, não é recomendável em tempos como estes. Ou melhor: a bandidagem está tão especializada que, mesmo aparentando não possuir nada, eles reconhecem uma pessoa “assaltável” pelo cheiro.
De acordo com o ISP (Instituo de Segurança Pública), em 2006 aconteceram 778,3 casos de roubos para cada 100 mil habitantes no estado do Rio de Janeiro. O drama chegou a tal ponto que, até uma das paixões nacionais – nada de mulher, tampouco futebol – tornou-se acessório de segurança ambulante. Falo única e exclusivamente das belas e excitantes curvas de um automóvel.

Tornou-se comum a construção de barricadas impedindo a passagem de carros nas entradas de morros e favelas. A população fica impossibilitada de transitar livremente. Deveria ser garantido a todo ser humano, o direito de ir vir. Não, não sou o autor de tal afirmação, certamente. Está lá, na constituição brasileira – aquele livro que todos deveriam saber de cor e salteado, mas não sabem ou ignoram.

Não basta ter um carro simplesmente, porque a recomendação está implícita: hoje em dia, automóveis devem possuir vidro fumê – na tonalidade mais escura possível –, alarme antifurto, chave eletrônica, vigilância via-satéliti ou via-rádio e, ainda, seguro total, caso os itens anteriores não sirvam de nada. Contudo, isso é só o começo. A violência urbana mudou, significativamente, a rotina dos cidadãos deste país.

Em terras tupiniquins, dependendo do horário, os sinais de trânsito se transformam em meros apetrechos de decoração das estradas. Até as leis se adequaram a barbárie do asfalto: a falta de um código para punir com rigor delitos cotidianos traz como conseqüência milhares de outras transgressões. Se você for carioca e estiver passando próximo da favela de Manguinhos (zona norte do Rio), na área intitulada “Faixa de Gasa”, provavelmente não vai parar quando o sinal estiver vermelho, após as nove da noite. Tudo bem, nenhum guarda de trânsito estará à espreita, de plantão neste turno – a não ser, claro, que tenha uma blitz na esquina.

Violência de dentro pra fora - A questão é, acima de tudo, como a banalização da violência se internalizou no brasileiro. Nas chamadas áreas de risco, moradores foram obrigados a retroceder. Não há transporte legal; crianças são impedidas de estudar por conta de conflitos; toque de recolher virou rotina quando a polícia invade; cidadãos têm mais medo dos policias do que traficantes e por aí vai.
O quadro social do Rio, assim como o do país, contribui de certa forma para o aumento alarmante da violência, vide os recentes casos de balas perdidas. Mas não significa que pobre seja igual a bandido (ou vice e versa) – confusão feita por bastante gente.
Enquanto senhores engravatados ficam atrás de suas bancadas sem propor leis mais rígidas, a população vive a mercê de leis impostas pelo crime. A maneira mais barata e óbvia, a longo prazo, de acabar com esse problema tão clichê, é utilizando um outro clichê, que há anos rodeia o imaginários dos brasileiros: investimento sólido na educação.

Cidade maravilhosa? Os bandidos concordam

33 comentários:

B. disse...

Isso é que é um jornalista de talento. Estou me sentindo tão pequena... talvez seja melhor desistir. rs

Som Do Silêncio disse...

Gostei de lêr imenso o texto, relata a dura realidade que se vive hoje em dia.
Escreves muito bem!

Um Beijo em Silêncio

Carol disse...

Muito bom seu texto.
Descreve a nossa realidade muito bem, parabéns.

Obrigada pela visitinha ao meu blog.
bjoss

Jonice disse...

Este último clichê, investimento sólido na educação, é o que realmente vale a pena. Tanto, que é só ele deixar de ser clichê para virar realidade e a própria realidade será transformada. Ótimo texto! Parabéns por ele e obrigada por tua visita :)

Marcelo disse...

Sem dúvida a educação seria uma das soluções para diminuir a violência.
Mas em países como ainglaterra e frança existe um bocado de violência também, embora cultos e ricos.
Sei lá cara, mas creio que isso se deve mesmo à índole de certas pessoas.
Neguinho quando é ruim, não tem o que o faça "bonzinho"...aiai.

Abração.

MARIA VALADAS disse...

Um bom texto, narrado com muita inteligência e alertando para os perigos existentes no Brasil.

Pois é meu amigo...ínfelizmente que não é só no Brasil que " eles" existem... mas sim por todo o planeta!

Continua a escrever temas interessantes como este... pois os escreve muito bem!

Beijos da

Maria

Vinícius Lírio disse...

.

educação e melhor distribuição de renda e oportunidade, talvez amenizasse isso...

de qualquer modo, medidas agora geraria uma melhro qualidade de vida a longo prazo. para nós o que resta, de fato, é aprender a conviver com essa realidade, sobreviver a ela e, de algum modo, tentar contribuir para amenizar seus efeitos.

excelente texto.
abraço

.

Dhyana disse...

Os teus temas como sempre, dão que pensar. A verdade é que tens razão, a solução está na educação, coisa que os que têm o poder de decisão, ainda não perceberam. Recebem projectos e sugestões mas não ligam nenhuma; a história e o passado, já lhes serviu de exemplo, mas mesmo assim...
Beijinhos...

alexia disse...

Olha..eu ando pouco assidua mas hoje arranjei um bocadinho e passei por aqui. Realmente as vezes dá a sensação que a violência por aí é um dado tão adquirido que as pessoas orientam as rotinas delas em função dessa mesma violência. Não sei...além da educação ha mais cliches que deveriam ser invocados:))

Beijo e boa semana!

Dindy disse...

Pois é. Conhecemos isso de perto. Quando digo de perto, não necessariamente morar em uma comunidade. Mas sim ver e vivenciar isso.
Basta esta vivo para morrer, como diz ditado, mas nem os mortos tem sossego, pis até invadr cemitérios esse bandidos invade.
A que ponto chegamos! O que será mas preciso acontecer, para os "maiorais" resolverem essa situação insustentavel.
Chega!!!
Queresmos pAz...

Bárbara P. disse...

Sinto-me envergonhada diante do pouco que faço para mudar esse cenário...

Zana disse...

infelizmente!!!essa é a realidade!!mas tudo tem um interesse, é grana que rola solta!!!o proprio governo é bandido!!!

Elza disse...

Retrato fiel da realidade brasielira!

Adrian Masella disse...

eh cara....

o livrinho que todos deveriam saber de cor e salteado, eh o mesmo que pode ser adquirido na versao de bolso por menos de 10 reais!!

mas pra que perder tempo lendo aquilo neh
eh mais facil pagar um advogado depois!

brasilero precisa para de ser preguiçoso e reivindicar direitos!

quanto a violência, um tristeza, nao tem nem o que comentar...

e semáforo, até aqui, em ribeirão preto, interior de são paulo, vira decoração depois das 10 da noite!!
e policial NENHUM vai te multar, porque eles mesmos aconselham a fazer isso!!

bom, eh a realidade brasileira neh!
um dia quem sabe muda!

abraço!!

Moura ao Luar disse...

Por esta o teu blogue merecia um prémio jornalístico, cá em Portugal o jornalismo tem andado muito longe daquilo que fizeste aqui... dizer a verdade, doa a quem doer.

Espirito da Lua disse...

Adorei o texto forte e directo ;)

Bj Lua

Skin on Skin disse...

Assunto demasiado serio...para ser levado na brincadeira, uma realidade dura para a Cidade Maravilhosa! Como tenho saudades do calçadão! E por acaso nunca me senti ameaçada, senti sim receio quando visitei sem querer a Rochinha! ;)

Beijokas on skin

Simone Carboni disse...

Antes de mais nada quero agradecer sua visita ao meu blog...Vim aqui retribuir o carinho!
A violencia no Rio chegou a um estado alarmante!Uma vergonha nacional...Todos os dias aparecem casos e mais casos de turistas vítimas de assaltos...Quero ver agora com o Pan! Não tenho vergonha do Rio, nem do nosso Brasil... Tenho vergonha do ser humano em geral, da decadência moral em que nos enredamos. A desigualdade social gera distorções na personalidade, e o crime passa a ser parte do quotidiano. Nós, humanos, estamos perdendo a noção do que é certo e errado!
Parabéns por levantar esta questão de forma séria! E parabéns pelo blog!
Abçs!
Simone

Rynaldo Papoy disse...

Com certeza, Paulo. Obrigado pelo comentário no c5p. Abraço!

Kah disse...

Nossa que texto bem escrito, explorou o assunto muito bem.Parabéns.Inveja,da boa,rs...O pior é que tudo isso é verdade.Violência tá tão comum, que já nem ligamos de passar com sinal fechado, ou de ter vidros que nada deixam ver.Adorei teu post.Um beijo e linda semana!!

Paula Estrela disse...

Oi lindo!


Amei seu texto, bem atual, queria fazer mais comentários, mas minha vida é uma correria durante a semana! Juro q volto e comento melhor!
Obrigada pela sua visita!
Ah, postei as fotos da "dona do sapatinho lá" kkkk . Me visita! (Continua não dando pra ver os pés)

Bjos!

Conceição Bernardino disse...

Olá,
Desculpe a minha ausência, mas o que importa é, que estou de volta.
Continuarei a comentar, é esta a minha maneira de ser:
Oferendo pensamentos de alguém, receba com carinho!

“O tempo não é um conceito empírico derivado de uma experiencia qualquer. O tempo é uma representação necessária que serve de fundamento a todas as intuições.

Kant

Beijinhos no coração
Conceição Bernardino

Aju disse...

Paulo, to em novo blog com novo endereço =]

www.blogdoaju.wordpress.com

Abraços

Adorável Pecadora disse...

Olá Querido! É por tudo que vc comentou que o índice de Síndrome do Pânico aumentou muito,quase chegando ao mesmo patamar que a depressão, conforme dados emitidos pela OMS.Realmente está tudo muito complicado amigo, mais não sei o que devemos fazer, além de nos trancarmos em casa, pois aqueles que poderiam fazer, não estão nem aí com a coisa...Estou passando p/avisar que estou retornando ao blog, que estou com saudades e que desejo um maravilhoso feriado e fim de semana para vc ok.beijocas...

zeze disse...

Olá Caro Amigo
Já visitei o Lindo Rio, e tive a sorte de não me sentir mal nesse sentido, agora a favela da rosinha,vai lá vai...
Espero a sua visita
Um Abraço

Lara disse...

A situação está drástica. De qualquer forma rendeu um excelente texto, crítico, sensível e realista!Bjus

paty disse...

LICENCINHA...
oooO
(....).... Oooo....
.\..(.....(.....)...
..\_).....)../....
.......... (_/.....TÔ PASSANDO!!!
oooO
(....).... Oooo....
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.......... (_/..... TÔ PASSANDO!!!
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(....).... Oooo....
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.......... (_/..... CALMA TÔ PASSANDO!!!
oooO
(....).... Oooo....
.\..(.....(.....)...
..\_).....)../....
.......... (_/.....
CHEGUEI...

Um pouco atrasada, confesso.
Porém de coração, trago-lhe:
UM beijinho de coraçao!e
desejo um bom fim semana!!

Paula Negrão disse...

Essas coisas acabam comigo..


beijos,

B. disse...

Olá querido!

Situação lamentável, só consigo dizer isso...

Parabéns pelo texto!

Boa semana =)

Bjks

Roberta disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Roberta disse...

Oi Paulo Fernando, seu texto não podia ser mais realista! Adorei! Uma pena que o cenário que vc tem para descrever seja tão tragico, caótico! Enquanto alguns casos de violência aconteciam, esparsos, em bairros distantes, era "fácil" atribuir a violência ao local de origem. Até que acontece conosco, em nossa rua, com alguém que conhecemos. Apesar de estarmos evitando todos os locais e horários ditos "perigosos", os caminhos "críticos", ainda nos sentimos ameaçados. Triste...
Houve um tempo em que a beleza do Rio era comparada a um cartão postal, pq refletia sua realidade. Atualmente, a beleza do Rio está mais para um papel de parede, daqueles que usamos para cobrir as rachaduras e infiltrações que estão por baixo, sabe como é?

seu texto me lembrou este post no meu blog:
[ http://achei-por-ai.blogspot.com/2007/05/maiakoviski.html ] Abs.. *editado*

Poeta.Meia.Noite. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Poeta.Meia.Noite. disse...

Complicado, mas é a Realidade. E "ponto". Nada mais a declarar!