Trivialidade suburbana

Uma criança, aparentando pouco mais de dez anos, cai no chão. Outra vítima nascia através do ventre da rotina carioca. A correria foi generalizada. Enquanto a maioria procurava uma forma de se esquivar (ou se esconder) dos tiros, a mãe, solitária em angústia, cuidava de sua cria.
Ninguém ouvia. Os policiais estavam do outro lado, duelando com os traficantes; as pessoas mal escutavam os próprios pensamentos e só tinham um objetivo: fugir daquela situação.
- Tudo bem, mamãe. Eu vou ficar boa – sussurrou a menina.
Uma pequena poça de sangue se formava no asfalto irregular. A mãe não podia tirar a filha dali, porque tinha medo de causar uma lesão ainda maior nela. “Não sei se a bala atingiu alguma área frágil”, indagava o instinto maternal. O tempo seguia a sua trajetória e o choro de agonia aumentava. Era possível sentir o cheiro de pólvora da guerra urbana.
- Você é linda, meu rebento. Mamãe vai cuidar de você.

Lágrimas misturadas com euforia tomaram conta do momento. Os rapazes chegaram para ajudar. Enquanto a mãe se levantava e pegava o celular de um deles para ligar ao hospital, a menina, que antes tremia, não esboçou mais nenhum movimento. Era tarde demais.
- Abra os olhos, queridinha! – gritou a mãe, batendo forte no rosto da criança.
Não havia pulso. A garotinha estava morta, mergulhada em seu próprio sangue. Todas as possibilidades de uma salvação foram descartadas. Aquele pequeno corpinho não sugaria mais oxigênio. Uma hora e meia após o término da batalha urbana, o coronel envolvido no

Tudo se resolveu. Do lado da imprensa, a manchete estava garantida; a policia havia cumprindo o seu papel e o “dia estava salvo”, ao passo que outra criança entrava para uma triste estatística.
- A minha menina era inocente, seus desgraçados! – berrou a mãe, ignorando uma premissa interessante e cruel: “as balas perdidas nunca atingem um culpado”.