Basta passar uma “donzela” pela rua que os pensamentos são transportados para debaixo das roupas que ela veste. Putaria? Não. É o sangue que corre nas veias. Se ela tiver de saia então... nossa! É quase possível sentir o vento transpondo a imaginação e levantando aquele tecido leve que esconde as vergonhas da “donzela”. Assim são os homens: sempre tentam ir além do que os olhos podem ver. Outros, nem fazem questão de enxergar...
Lugar nenhum de minha terra amada. Perdi você na entrelinha de um pensamento distante. Visivelmente longe de mim, o ego. Percebestes que o mundo ainda gira ao nosso redor? Da dor, sobrou o aconchego na fotografia, repleta de vãos vazios na prateleira dos meus vícios. Perdi. E achei você, indeterminadamente covarde e corajosa. Na música que padeceu num espaço oculto do olhar, o lá veio de lá, próximo de todas as minhas projeções de alegria. Lá, som monossilábico e lugar monocromático. Procuro uma resposta inatingível. Lá, lá, la, la, la... não quero mais saber de ti.
Violência de fora pra dentro O dia-a-dia em conflito com a individualidade
Algumas cenas da realidade do Brasil viraram clichê. É até clichê dizer que isso é clichê. Ostentar jóias ou objetos visíveis aos outros, por exemplo, não é recomendável em tempos como estes. Ou melhor: a bandidagem está tão especializada que, mesmo aparentando não possuir nada, eles reconhecem uma pessoa “assaltável” pelo cheiro. De acordo com o ISP (Instituo de Segurança Pública), em 2006 aconteceram 778,3 casos de roubos para cada 100 mil habitantes no estado do Rio de Janeiro. O drama chegou a tal ponto que, até uma das paixões nacionais – nada de mulher, tampouco futebol – tornou-se acessório de segurança ambulante. Falo única e exclusivamente das belas e excitantes curvas de um automóvel.
Tornou-se comum a construção de barricadas impedindo a passagem de carros nas entradas de morros e favelas. A população fica impossibilitada de transitar livremente. Deveria ser garantido a todo ser humano, o direito de ir vir. Não, não sou o autor de tal afirmação, certamente. Está lá, na constituição brasileira – aquele livro que todos deveriam saber de cor e salteado, mas não sabem ou ignoram.
Não basta ter um carro simplesmente, porque a recomendação está implícita: hoje em dia, automóveis devem possuir vidro fumê – na tonalidade mais escura possível –, alarme antifurto, chave eletrônica, vigilância via-satéliti ou via-rádio e, ainda, seguro total, caso os itens anteriores não sirvam de nada. Contudo, isso é só o começo. A violência urbana mudou, significativamente, a rotina dos cidadãos deste país.
Em terras tupiniquins, dependendo do horário, os sinais de trânsito se transformam em meros apetrechos de decoração das estradas. Até as leis se adequaram a barbárie do asfalto: a falta de um código para punir com rigor delitos cotidianos traz como conseqüência milhares de outras transgressões. Se você for carioca e estiver passando próximo da favela de Manguinhos (zona norte do Rio), na área intitulada “Faixa de Gasa”, provavelmente não vai parar quando o sinal estiver vermelho, após as nove da noite. Tudo bem, nenhum guarda de trânsito estará à espreita, de plantão neste turno – a não ser, claro, que tenha uma blitz na esquina.
Violência de dentro pra fora - A questão é, acima de tudo, como a banalização da violência se internalizou no brasileiro. Nas chamadas áreas de risco, moradores foram obrigados a retroceder. Não há transporte legal; crianças são impedidas de estudar por conta de conflitos; toque de recolher virou rotina quando a polícia invade; cidadãos têm mais medo dos policias do que traficantes e por aí vai. O quadro social do Rio, assim como o do país, contribui de certa forma para o aumento alarmante da violência, vide os recentes casos de balas perdidas. Mas não significa que pobre seja igual a bandido (ou vice e versa) – confusão feita por bastante gente. Enquanto senhores engravatados ficam atrás de suas bancadas sem propor leis mais rígidas, a população vive a mercê de leis impostas pelo crime. A maneira mais barata e óbvia, a longo prazo, de acabar com esse problema tão clichê, é utilizando um outro clichê, que há anos rodeia o imaginários dos brasileiros: investimento sólido na educação.
A foto mostrava a imagem de dois amiguinhos comendo cachorro quente, numa lanchonete da zona oeste do Rio de Janeiro. Eles estão sorrindo e olhando desconfiados para um mendigo sentado no chão, próximo do estabelecimento onde se alimentam. Era cerca de 12:30.
- Gostei muito, meu filho – disse o pai, passando a mão na cabeça do menino.
Um dos detalhes da foto, o qual não tinha sido notado pelo garoto, era que o mendigo estava comendo as azeitonas do cachorro quente dos seus amiguinhos, provavelmente arremessadas ao chão, porque eles não simpatizavam muito com o fruto.
- E aí, já sabe o título que vai pôr na foto? – perguntou o pai. - Não... foto precisa de título? – questionou inocentemente o filho. - Claro! É isso que a identifica no meio de tantas outras.
O filho vislumbrou meticulosamente a foto (ou, pelo menos, tentou), no intuito de descobrir um nome que mais se adequasse à imagem. Porém, seus olhar infantil só o fazia enxergar um mundo de sorrisos e fast foods baratos. Aliás, o fotógrafo mirim nem sabia o significado da palavra “food”, tanto literalmente como metaforicamente. Ele franzia a testa, remoendo em sua pequena cabeça pensamentos que pudessem levá-lo à um denominador comum, isto é, o título. Os objetos entravam numa sintonia estranha que ele não sabia...
- Que tal “a hora do almoço?” – o pai interrompeu os pensamentos do menino, indicando um título.. - Achei esse título ótimo, papai!
De um lado, o menino reparava mais uma vez o cachorro quente na mão dos amiguinhos, na medida em que concordava com o seu pai. Do outro lado, o pai observava o mendigo desfrutando daquela “reles” azeitona, outrora dispensada por outras bocas. Ambos estavam certos de que tinham tomado a melhor decisão para o título.
Primo sem noção – Paulo, vi um tênis super maneiro no camelô. Me empresta uns trocados? Paulo Fernando – Pô, você só fala comigo quando o assunto é dinheiro. Primo sem noção – Mentira! Eu também falo de mulher... Paulo Fernando – Sei... Que tal perguntar como estou, saber o que ando fazendo ou coisas desse tipo? Primo sem noção – Tudo bem. Como você está e o que anda fazendo?
Paulo Fernando – Estou muito bem. Tenho estudado e trabalhado bastante. Primo sem noção – Que legal! Me empresta uma grana? Paulo Fernando – ... (cara de raiva) Primo sem noção – Iiiiiiiihhhh. Você disse que estava “muito bem” e, do nada, me olha com essa cara.
Paulo Fernando – Você só pode tá de brincadeira! Tu faz isso pra me provocar, só pode ser.
Primo sem noção – Que nada. Faço porque estou precisando da grana mesmo. Quero aquele tênis urgentemente. Paulo Fernando – Já parou pra pensar que você é o que consome? Primo sem noção – Não. Se bem que... Paulo Fernando – ... Primo sem noção – Seguindo o teu raciocínio, tenho pele macia, cheiro de armário velho e um estranho gosto por pés. E melhor: o símbolo da Nike está tatuado em minha testa. rsrs Paulo Fernando – Você está falando do tênis, suponho.
Primo sem noção - Mas agora, eu e o tênis somos a mesma coisa.
Paulo Fernando - De certa forma, é quase isso. Mas você não pode deixar que as coisas te controlem, isto é, ser refém dessas vontades superficiais. Primo sem noção – ... (cara de confuso) Paulo Fernando – Enfim, só posso te emprestar R$20 reais, porque vou sair mais tarde com a Dindy. Primo sem noção – Bem que eu achei que a sua bunda estava grande demais. Paulo Fernando - ... Primo sem noção – Você não disse que a gente é o que consome? Então... Paulo Fernando – Disse sim, mas isso não é o que me define nessa vida. Primo sem noção – Ué, mas você não come a Dindy? Paulo Fernando – Bom, tecnicamente, é ela quem me come. E daí? Aliás, isso não vem ao caso! Primo sem noção – É claro que vem. Você consome a Dindy, logo, você é ela. E sendo ela, você come a si mesmo... Paulo Fernando – Ah... “vai tomar no cú”!!! (ele pensou sem dizer nada) Primo sem noção – Além do mais, sexo emagrece. Portanto, nos deixa definidos. Trocando em miúdos: a Dindy é o que te define e você é ela porque a come (ou consome). Paulo Fernando – Toma o dinheiro!
O Primo sem noção aceitou os R$20 reais, porém só conseguiu comprar uma sandália pirata da Ryder e uma casquinha do Bob’s. Essa foi a vingança silenciosa de Paulo Fernando.
Diga o seu nome mais uma vez. O som da tua voz é cativante, belo. Seu biquinho convidativo premia todo um instante de troca de olhares.
- Je ne comprends pas.
O quê? Gostei do toque de tuas mãos quando disse as palavras anteriores. Tais reações condenam o que você sente, espero. Mas não, não sejamos reféns do dialeto. O amor é mais que isso, o amor fala a línguia universal.
- Parlez-vous anglais? – ela me mexeu com os lábios.
“Por que francês?”, pensei. Acredito que depois da língua do amor, essa é a que chega mais próximo do meu coração, pois, de todas as pessoas que eu poderia encontrar no mundo, me encantei por ela – a mulher clara de pele macia -, diferente em síntese e igual no instinto.
- Pourriez-vous répéter ça?
Ahhhhhhhhhhhhhhhhh. Creio que o pensamento dela é parecido com meu. Porém, nessas horas, a dúvida bate no peito e encurrala o desejo de dar o bote. Avanço ou não avanço? Um abraço, no mínimo, seria glorioso. Vou esperar...
a troca de olhares continuou. Contudo, a única coisa que temos certeza nessa vida, é o fim...
- Jumenet de co – ela disse beijando o cantinho da minha boca. E antes de partir – imaginei que ela fosse ficar -, distanciando-se, pouco a pouco, um tal “Au revoir” fugiu de seu âmago, como se fosse espelido pela necessidade de dizer “não”, intencionando um “sim”.
Não pensei duas vezes, ou melhor, simplesmente não pensei. Tirei peça por peça deixando-me embriagar pelo olhar sedento dela. As suas ordens juntavam-se as minhas fantasias mais sórdidas de ser dominado. Eu aceitava e, aceitando, ela se excitava. As vestes estavam jogadas. Meu sexo rígido apontando para aquela materialização de paraíso. E ela encarava cada detalhe do meu corpo como se eu fosse o mapa de um novo mundo. Era assim, lindo pela observação e seco de toque. Eu queria me mexer, mas não podia, porque ela não havia ordenado. Tentei ver por detrás da lingerie, apesar de me contentar facilmente com a arte final de seu corpo emoldurado naquelas vestes.
- Faça o que quiser de mim! – Ela disse logo após deslizar vagarosamente a língua por meu ouvido esquerdo.
Fiquei numa espécie de transe. Eu podia ver o desenho exato de suas curvas em luz tênue. Ela estava molhada de vontade; e eu, duro de apetite. Abracei-a conforme mandam as regras da sedução e, penetrei-a de pé, sem invadir um centímetro sequer do teu sexo. Como eu fiz isso? Comendo o êxtase e deixando-a provar do meu. Ficamos parados, roubando calor e aquecendo um ao outro. Vilipendiamos o orgasmo em forma e mimetizamos as sensações do prazer real. A luz tênue se apagou e sobramos, imersos na escuridão deliciosa de nossos corpos.
Um grão de areia está triste, perdido no meio de bilhões e bilhões de outros grãos. Ele procura por uma grãozinha, mas não encontra. Todas que conseguem mexer com a sua cabeça, são leves, de modo que voam facilmente com qualquer brisa do mar ou piscadela de outro grão, sobretudo do RicarGrão. As reclamações existentes encarnam-se numa dinâmica: “não sou denso, estou clarinho e em forma, entretanto, não acho ninguém pra casar”. Ele é de família. Só atinge os olhos de pessoas decentes e sempre se lava em mares alheios, desde que possuam emissários submarinos. De vez em quando, ele gruda no bumbum de alguém na praia. “E daí”?, pensa. A paixão do brasileiro é a bunda mesmo! Mas isso acontece aos montes. Sabe, a pior coisa em ser grão de areia é ter o deserto como porto seguro.
No mundo de hoje, histórias como as de um grão de areia estão fora de moda. Por isso, resolvi escrever sobre coisas pouco comentadas na mídia ou nas casas. Seja cera de ouvido; coceira nas partes íntimas; excitação indesejada (se é que possível... ahaha) no carro ou no ônibus; barriga que esconde o cinto ou porque homem de terno e gravata nunca é atropelado (e muitos outros). Estou, a partir de agora, topando o convite que a DAN PLOC me fez para participar de desafios literários. Portanto, desafio vocês a me desafiarem! Mandem sugestões de tema, contos, de dissertações, de monografias, de teses, de poemas, de histórias e eu escolherei algumas das sugestões para dissecar!
Não pode sentir o que eu sinto agora. Não pôde sentir o que eu sentia. Não sentirá o que vou sentir amanhã. Sou tato e você insensível. Enquanto me despisto na horizontal, seus passos continuam se distanciando pela vertical. Latitudes e longitudes não são capazes de localizar a dor em meu peito, porque ele se espalha velozmente, mais rápida do que a luz. Transformo-me em indeterminada, hiato. Se não me acho, reencontro o farol naquilo que está perdido. Por mais que seu membro esteja envolto ao plástico, meu prazer é real, surreal! Mas vale a pena. Posso ser penetrada por todos os males espirituais que o teu pau venha me causar, porque dos males físicos, a camisinha me protege. Será que existe um preservativo para a mente?
Esse trem faz um trajeto comum pelos trilhos finitos da ferrovia. O vento do norte, cortando o alumínio que encobre a parte externa do veículo, desaparece no primeiro vácuo. As mãos desunidas tentam se agarrar nos ferros que balançam. É a inércia prevalecendo, levando-os de um lado para o outro e fazendo com que voltem ao mesmo lugar. Na parte de fora, paisagens nascem, somem, pedem auxílio, reclamam desdém. Entretanto, é necessário que o trem continue o percurso. Tem gente esperando na próxima parada. Existem aqueles que teimam em se preocupar com o que acontece do outro lado. Coitadinhos. Não adianta tentar puxar a cordinha ou disparar o alarme de emergência que faz o trem estacionar. Só resta a eles olhar a paisagem, ver as desgraças e alegrias, sem participar de nada. São espectadores que não possuem o direito de interagir, por mais que dê aquela vontadezinha de penetrar na vida alheia. Enfim, chegam à Central. Os muitos passos se multiplicam, ecoam no solo fértil e febril da cidade. A correnteza de pensamentos segue pela contramão: todos querem voltar – o quanto antes - para a nascente, mas nenhum deles sabe o caminho. Sobrou apenas o vagão, inerte a tudo isso. As horas se esvaem pelos ponteiros mais calmos e apressados. Na plataforma, algumas oportunidades desperdiçadas, sonhos que nunca se realizarão e a tal esperança que, realmente, nunca morre – porque quem morre é você. O intervalo está terminando. A locutora oficial da estação já vai fazer sua chamada: “trem da Central com destino à...”. Embora a voz seja bem clara e suave, outros afazeres a tornam inaudível. Contudo, é sabido que não se pode deixar escapar a chance de entrar no trem e voltar pra casa, pois o descanso é precioso e necessário. Amanhã, caso o galo não cante bem cedo, é capaz da ferrovia estar vazia, sem aquele trem, porque ele não tem a obrigação de esperar. Se no vagão é possível ver a vida dos outros, fora dele, a sua vida se torna a dos outros. Então, não perca a hora: o seu centro não é a Central; é a Central que é o seu centro.
- Por favor, socorram a minha filha! – gritava a mãe desesperada, numa rua movimentada da zona norte do Rio. Uma criança, aparentando pouco mais de dez anos, cai no chão. Outra vítima nascia através do ventre da rotina carioca. A correria foi generalizada. Enquanto a maioria procurava uma forma de se esquivar (ou se esconder) dos tiros, a mãe, solitária em angústia, cuidava de sua cria.
- Me ajudem pelo amor de Deus! – continuou a suplicar.
Ninguém ouvia. Os policiais estavam do outro lado, duelando com os traficantes; as pessoas mal escutavam os próprios pensamentos e só tinham um objetivo: fugir daquela situação.
- Tudo bem, mamãe. Eu vou ficar boa – sussurrou a menina.
Uma pequena poça de sangue se formava no asfalto irregular. A mãe não podia tirar a filha dali, porque tinha medo de causar uma lesão ainda maior nela. “Não sei se a bala atingiu alguma área frágil”, indagava o instinto maternal. O tempo seguia a sua trajetória e o choro de agonia aumentava. Era possível sentir o cheiro de pólvora da guerra urbana.
- Você é linda, meu rebento. Mamãe vai cuidar de você.
O tiroteio estava diminuindo. Finalmente a policia havia tomado o controle do confronto. Duas das pessoas que correram quando o clima estava tenso, voltaram para ajudar filha e mãe. Os anjos, enfim, conspiravam a favor.
- A ajuda está vindo, minha menina!
Lágrimas misturadas com euforia tomaram conta do momento. Os rapazes chegaram para ajudar. Enquanto a mãe se levantava e pegava o celular de um deles para ligar ao hospital, a menina, que antes tremia, não esboçou mais nenhum movimento. Era tarde demais.
- Abra os olhos, queridinha! – gritou a mãe, batendo forte no rosto da criança.
Não havia pulso. A garotinha estava morta, mergulhada em seu próprio sangue. Todas as possibilidades de uma salvação foram descartadas. Aquele pequeno corpinho não sugaria mais oxigênio. Uma hora e meia após o término da batalha urbana, o coronel envolvido no confronto faz um comunicado à imprensa: “a operação foi um sucesso. Hoje, 13 bandidos foram mortos e apenas um inocente morreu, por bala perdida. Tudo se resolveu. Do lado da imprensa, a manchete estava garantida; a policia havia cumprindo o seu papel e o “dia estava salvo”, ao passo que outra criança entrava para uma triste estatística.
- A minha menina era inocente, seus desgraçados! – berrou a mãe, ignorando uma premissa interessante e cruel: “as balas perdidas nunca atingem um culpado”.
Cortei meus pulsos e esperei. Vi o sangue escapando em câmera lenta, sujando o chão encerado do banheiro. Seria a morte dando “boas vindas” devagarzinho? A fraqueza natural começou a se manifestar; o rito de passagem estava prestes a ser cumprido, ao passo que eu iria para um lugar melhor, encontrar Deus, talvez. Conforme a consciência se esvaía, o desejo de morrer também perdia força. Deus já não era prioridade, apesar Dele estar fixo na minha cabeça, presente em preces. Agora que o meu plano funcionou, eu quero mesmo é voltar no tempo, pegar a navalha que utilizei e me preocupar apenas com a barba por fazer. Sinceramente, nunca pensei na morte como passarela, mas acho que estou muito feio para morrer. Eu deveria ter feito as unhas, aparado os cabelos, depilado um pouco o peito, roubado um beijo da vizinha gostosa... no entanto, a última lembrança que terão de mim é a de um homem – ou menino - desleixado, o qual não tinha outra opção a não ser a morte mesmo. Não quero que pensem isto. Eu escreveria um bilhete explicando tudinho, porém, só fui me dar conta disto neste instante. O pior de tudo, é que não consigo mais me mover, estou com poucos reflexos. Se eu pudesse, pegaria o telefone e ligaria para alguém vir me ajudar a fazer o sangue parar de jorrar. Será que meus olhos se fecharão automaticamente ou eles ficarão abertos? Sei lá. Os meus p-e-n-s-a-m-e-n-t-o-s e-s-t-ã-o c-a-d-a v-e-z m-a-i-s l-e-n-t-o-s e c-u-r-t-o-s, enquanto sou atingido pelo arrependimento. Até as coisas estão rimando na minha mente. Maldita a hora que fui cortar os pulsos! Seria bem mais fácil se eu tivesse dado um tiro na cabeça ou me atirado de um precipício. Nunca imaginei que a possibilidade de pensar durante os momentos que antecedem a morte, fosse me fazer dar valor a vida. Ou pior: dar valor ao que eu ainda não tive a oportunidade de viver.
Ela serpenteia o corpo da pobre vítima apaixonada. Usa-o ao seu bel prazer, deixando penetra-se pelo instrumento do macho. O sexo é bom, rápido e frágil. Gigante em sua teia de agonia e satisfações recatadas, nossa viúva respinga um pouco de seu suco: ácido, quente e mortal. Terminou. Depois de ser “comida” pelo macho, o golpe final pôde ser dado:
- Agora que teu sêmen é meu, faço tua a minha morte.
E ele morre feliz, em estado de êxtase, cumprindo a profecia numa transa tão maravilhosa quanto finita. Breve, feito a vida de qualquer homem, e suave como o momento que sucede a gozada. Acaba-se o orgasmo e sobra marasmo.
Empurra o BALANÇO da criança na praça. Ela vai e volta, SORRINDO e pedindo mais. A gente repete o movimento, levando Aninha (a criança) outra vez ao céu, enquanto a GRAVIDADE a trás de volta para a terra. É um pêndulo que termina o ciclo sozinho. Depois de um tempo, a criança não precisa mais de ajuda, ela já consegue buscar IMPULSO SOZINHA - voa e pousa sem que ninguém a impulsione. A companhia é apenas aquele velho balanço, CONSTRUÍDO PELA PREFEITURA, numa época em que a eleição se aproximava.
O outono passou e mais uma eleição estaria por vir. A falta de emprego, a comida que não chegava à mesa: tal miséria estava disposta em não pedir dispensa. No vai e vem da vida, a própria vida de Samuel resolveu servir de BALANÇO. Ele se equilibrava da maneira que podia. Tentou durante muito tempo pedir ajuda, um emprego, um curso. Mas os governantes não estavam atentos para a GRAVIDADE do problema. Aliás, em todos os sentidos, gravidade acaba sendo tudo aquilo que nos empurra para baixo, que nos diminui em nossa insignificância. Cansado de tentar se BALANÇAR SOZINHO, Samuel SORRIU da situação, arranjou uma arma no morro e foi viver de assaltos. Durante alguns meses, a nova profissão deu certo. Foram cinco assaltos realizados com sucesso. No sexto, resolveram parar o balanço de Samuel. Próximo a uma praça, enquanto praticava o crime, o nosso personagem foi surpreendido por policiais. O tiroteio era inevitável e Samuel teve o seu caminho selado: quatro tiros (um na cabeça, dois na altura do peito e um na mão esquerda). Mesmo assim, muitas balas não o atingiram, assim como nenhum de seus tiros havia atingido os policiais. As munições ficaram a mercê da gravidade e, uma delas – que tinha passado de raspão quando Samuel ainda estava vivo – achou o seu destino num BALANÇO CONSTRUÍDO PELA PREFEITUTA, o qual Aninha brincava.
No dia seguinte, para duas famílias, não havia mais balanços, mais sorrisos, mais fome. Apenas a gravidade permanecia intacta, puxando para baixo todas as coisas e pessoas que resolvessem ir contra a sua lei.
Eu: Quem é você? Ele: Eu sou o “Ele”, né? Eu: Por que respondeu interrogativamente? Ele: Você não acabou de fazer o mesmo? Eu: ...? Ele: Continua fazendo, apesar de não ter falado nada. Eu: Até que enfim uma afirmação! Ele: ...? Eu: Ih... vai começar tudo de novo? Ele: Não. Eu: Vai ficar monossilábico? Ele: Não. Eu: Sei... Ele: Você é gay? Eu: Quem? Eu?!? Ele: É. Eu: Não! Por quê? Você é? Ele: Também não. Eu: Ah bom... Ele: Por que “ah bom”...? Você é homofóbico? Eu: Quê?!?! Ele: Você tem alguma coisa contra os gays? Eu: Não, desde que haja um respeito. Ele: Mas eles teriam motivos para não respeitá-lo? Eu: ... (fez sinal de negativo com a cabeça) Ele: Então... Eu: Então o quê? Ele: Deixa pra lá. Eu: Você é estranho, muito estranho. Ele: Coincidência... Eu: Por quê? Ele: Porque penso o mesmo sobre você. Eu: Pelo menos temos algo em comum. Ele: Ah é! Eu: Mas tudo isso poderia ter sido evitado se você tivesse respondido a primeira pergunta do nosso diálogo. Ele: Pô, eu respondi. Eu: “Eu”? Ele: Você não. Eu! Eu: Caraca... que conversa de maluco! Ele: Deixe-me explicar: o meu nome é “Ele”, sacou? Ou seja, eu sou o “Ele”. Eu: Então, se você é o “Ele”, eu sou “Eu”. Ele: Capitou a minha mensagem. Eu: Peraí: se o seu eu é Ele, o meu ele não deveria ser “Eu”? Ele: ...? Eu: Esquece! Ele: Acho que foi por isso que inventaram os nomes próprios.
- Amor, saia já da frente do espelho! – esbravejou minha mulher.
Depois das reformas da linguagem, pronomes pessoais e tantos outros elementos, viveram felizes para sempre.
Ela apareceu completamente nua. Por hora fiquei excitado, querendo mostrar serviço. Acompanhei com os olhos as curvas dançantes daquele corpo escultural. Beijei o ar e me dei uns beliscões imaginando que o corpo dela já era meu. Senti a dor das unhas cravando em minha pele: não era sonho! Abaixei rapidamente o short, tranquei a porta do quarto e aumentei o volume da música para ninguém perceber ou escutar o som das “barbaridades” que estavam por vir. Acariciei um pouco meu pênis para dar a impressão de ser maior do que ele realmente é. Peguei um creme maravilhoso de massagem, esfreguei-o nas mãos e dei início à suspiros. O atrito esquentava os dedos; dedos esquentavam toda a minha zona erógena; a minha zona erógena me fazia suar, espernear e ter uma adorável dificuldade de respirar. Eu poderia morrer ali, entregue, sem armas, sem dor. Mas não, sou muito jovem e ela também. Aquele belo par de seios ainda tinha muito que balançar com o meu ritmo ou com outros. Além disso, poucas mulheres sentiram inveja dela, do corpo em branco, sem nenhum risco de celulite ou qualquer outra marca do tempo. Com mais alguns anos, tenho certeza que a inveja alheia feminina triplicaria. Em mente, nossos líquidos se juntam e tornam-se “uno” carnal! De repente, meus olhos começaram a tremer, envesgarem - tô quase lá! No entanto, tudo ficou escuro. A música também parou de tocar.
- Filho, acabou a luz! – gritava a minha mãe da cozinha
Eu olhei para todos os cantos do meu quarto e não vi ninguém. A cama estava suada, mas era apenas o meu suor. A única coisa quente - sem ser eu - era a TV, desligada pelo pico de luz. A solidão voou e aterrissou de volta. É triste saber que aquela bundinha gostosa e todo o resto desapareceram com a eletricidade, esfriando-me a um passo do gozo, deixando-me em choque.
- Filho, você sabe onde está o filme pornô que o seu pai alugou na noite passada? Não estou conseguindo achá-lo. - ... – pensei.
Idade Média “Pela estrada afora eu vou bem sozinha, levar esses doces para a vovozinha...”
Numa floresta, a Chapeuzinho corria riscos. Sua avó quase foi sacrificada. Já o lobo faminto, não contava com o aparecimento do caçador. Por fim, todos – menos este lobo mau – viveram felizes para sempre.
Idade Pós-Moderna Chapéus, bonés, gorros e quaisquer outros objetos para a cabeça – ou não -, vivem fora da rota de extinção. A selva é de pedra e as florestas não são tão plurais assim. O lobo virou casaco e a vovó está no asilo – ou nas casas de bingo. E os que insistem em viver nas alcatéias humanas, reencarnam, com a mesma fome, nos corpos de Josés, Mários, Silvios, Jacksons, Micheles... Nesta era, ninguém é bobo de ir sozinho pela estrada afora, uma vez que a frase “saio e não sei se volto pra casa” se tornou um clichê doloroso. Por via das dúvidas, enviam os doces via-sedex ou mandam a padaria da esquina entregar em domicílio. Até o caçador foi corrompido pelas mudanças: o que era uma “ingênua” arma de caça, transformou-se em tanques de guerra, metralhadoras, mísseis. As serras e cerrados testemunham sons de serras elétricas e, embora a esperança ainda exista, o verde já não está atrelado a ela. Tal cor, infelizmente, foi obrigada a tirar licença das atividades denotativas e conotativas, pois está na UTI, esparramada sobre mesas, em coma profundo. No fim, eles viverão felizes para sempre?
Descolorida é a morte. Sem aquarela, sem cores vivas, desbotada. Mas quem morre, vive, seja em lembranças boas ou ruins. E todos morrem e relembram. Nem todos vivem, porque isso não é apenas um verbo, sequer um verso. É essência, é dor e mistério. Fundamentalmente, atitude!
No Brasil não há neve como na Europa; os europeus são menos negros que os brasileiros. Até os nossos céus possuem azuis diferentes. Mas somos semelhantes nas cinzas da desgraça, do atentado terrorista ou da chacina esquecida.
Enlouquecemos juntos, com a belaza do arco-íris. Nele, uma ponte sem lei e destino nos leva para lugar algum. Coresmisturadas dão origem a outras cores. Humanos misturados poderiam possuir os mesmos pensamentos? Não, pois o universo é incolor, ciano, margenta, black e yellow. A pomba, guardiam de nossa maior esperança, pode ser branca. No entanto, ela viaja pelo sentimento negro, que reside acima de nossas cabeças e atinge, em cheio, nosso coração.
O sangue é vermelho e poderia, também, ser fluorescente. Quem sabe desta maneira, as VÍTIMAS chamariam mais atenção do que a coloração das capas de jornais? Assim seguimos: numa realidade colorida, fotografada em preto-e-branco.
Sou o reflexo daquilo que vejo quando olho no espelho. Essa é minha imagem física.
Sou o reflexo daquilo que sinto no mundo. Essa é a minha imagem espritual.